terça-feira, 19 de outubro de 2010

contos premiados superpelota

QUANDO NASCEM OS ANJOS
                             (Superpelota)
       .... Tic, tac, tic, tac, Tudo que se ouvia era o barulho repetitivo de um velho despertador que estava sob um antigo guarda roupa, ao lado dele, um berço mais velho ainda, onde dormia mimosamente um bebê de aproximadamente um ano e meio. Do outro lado, uma pequena cama e mais um candidato ao sono. Este aparentava quatro anos mais ou menos, ambos traziam consigo uma candura e uma beleza nem sempre vista, mesmo com olhos fechados deduzia-se suas faces eram coloridas, pele rosada, lábios ainda mais tonalizados ao vermelho, olhos azuis com pequenas pontinhas verde e para compor o encanto longos cílios dourados, suas mãos suavemente roliças em tom pastel, com unhas modeladas e levemente envernizadas demonstrando no conjunto o vigor da  juventude. Ainda neste ambiente perfumado e caloroso pela energia dos corpos se via uma cama de casal e nela descansava um corpo de mulher cujos olhos estavam vidrados no despertador que acusava  quatro e meia da madrugada.
            Seus pensamentos estavam fixos na traição do marido que até aquele momento não dera as caras, e sua fértil imaginação vivia e revivia momentos que visualizavam ele com outra mulher em cenas de sedução e orgia, após pensar e repensar no que deveria fazer, tomou coragem, levantou cautelosamente, se vestiu, calçou e penteou apressadamente os seus cabelos e saiu, trancou a porta, sentia segura em relação aos filhos, não hesitou, Caminhou apressadamente pela avenida principal da pequena cidade onde vivia. Janete, este era o seu nome, carregava em seu peito uma dor imensa, um misto de arrependimento e dependência do amor pelo marido que invadia sua lucidez. E ela mal sabia que dor maior ainda estava por vir naquele dia.
 A traição de um homem é quase cultural para as pessoas, mas é cega e ameaçadora para quem a sofre. Seu corpo suava frio e uma sensação de alívio queria povoar seus pensamentos quando em um momento de vontade maior que a própria realidade, seu coração dizia que não encontraria o marido em condições de traição.
            A caminhada de 20 minutos estava chegando ao fim, parou em frente à casa, atentamente se conteve ao lembrar que aquele lugar era imoral para a maioria das pessoas da cidade. Inflou o peito, corrigiu a postura buscando forças para adentrar, mas parecia que respirava fagulhas. Diminuiu os passos, buscou leveza no andar e entrou, pois a porta estava entreaberta, o cheiro era forte: perfume, bebidas e cigarros. Alguns corpos debruçados sobre a mesa, demonstravam que alguns infelizes não conseguiram mergulhar nos prazeres carnais e que eram desprezados até pela escória da cidade. A casa era carregada de bibelôs nos móveis e gravuras de atrizes famosas em épocas passadas. Um sofá, algumas mesas e um balcão de madeira antigo com requadro em vidro demonstrando varias garrafas de bebida, uma geladeira azul antiga  que mais parecia um bar , o piso de cimento vermelho e o teto de telha de amianto  comprovava que aquele negócio não era promissor.
            Percorreu um corredor estreito, com paredes cheia de infiltração, três portas sugestionavam o encontro com o marido, na primeira, um quartinho pequeno que mal cabia uma cama de casal, lá estava ele,  largado em cima de um seio nu, num corpo carnudo de uma mulher enrugada definhada por maus tratos por mais que uma maquiagem escondesse, o momento era oportuno para enxergar verdadeiramente uma baranga. Não compreendia a escolha do marido, mas entendia que somente embriagado ele se envolveria com ela.
Tocou-o e em meio a tristeza, um desespero descontrolava sua voz que mal saiu da garganta, mal sabia que desespero maior ainda estava por vir. Despertou-o calmamente, ele equilibrou o corpo se vestindo desajeitado, ela estava em estado de choque, não queria ser vista naquele lugar. Saíram apressadamente, com ela cobrando  dele uma explicação e ele nem se deu ao trabalho, agia naturalmente como se não houvesse acontecido nada, nesse instante, tamanho foi o  sentimento de desgosto e pequenez do seu ser, diante da insuportável situação.
 Ele caminhava um passo a frente, enquanto ela observava o seu corpo esbelto e convidativo ao prazer, seu ombro largo desenhado para a força física, a sua estatura era especialmente perfeita, suas pernas e corpo na proporção ideal, o seu jeito másculo de andar, o seu braço não se estendiam por inteiro por ser impedido pela musculatura avantajada na altura do peito, com pescoço levemente moreno avermelhado pelo bronzeado adquirido não intencional. Ele era amado e desejado com muita intensidade, mas não conseguia corresponder em função do machismo e da sua criação livre para a vida.
Ambos percorriam de volta o mesmo caminho que ela fez.  Janete sentia como se estivesse caminhando em cima da própria carne e mal sabia que uma tristeza maior a consumiria. Ele não abriu a boca. O sol apontava com força total colorindo o céu com nuances do vermelho ao amarelo. Em meio à beleza da paisagem, avistaram um risco de fumaça, foi quando Janete lembrou das suas roupas na varanda e por segundo até esqueceu do acontecimento anterior.
Seus passos aceleraram em direção a pequena casa que fumegava. Era exatamente a fumaça que antes não acusara a sua origem. Correram um grito estridente ecoou, alguns poucos vizinhos se empenhavam com coragem e correria para apagar aquela chama imensa. Janete em seu desespero se lançou ao chão e jogava terra com a intenção de apagar o fogo. A casa queimava ainda mais e mais e uma escuridão se fez aos sentidos de Janete que desmaiou ao ver que a robustez do seu marido não conseguia vencer as chamas daquele fogo infernal.
Logo após, o fogo foi contido, mas a morte não, e no pouco que restara da casa, dois corpos  deformados em tudo. O que mais chamara a sua atenção não foi a cor da carne amanteigada com a pele pururucada, mas a chupeta azul leitosa,  derretida esparramada e grudada  pela alta temperatura do plástico na boca do menor, que formou uma escultura abstrata em meio a carne dos lábios da criança.  O choro lamentando, a angustia doentia de um pai e uma mãe que nunca imaginou tamanha é a dor do amor maternal.
Já em um lugar bem distante, mais longe do que os pensamentos podem alcançar uma dupla é recebida em meio a risos e alegria, temperada com um frescor e um perfume suave, aquele mesmo cheiro, os mesmos cílios, boca, nariz, mãozinhas, iguais às relatadas no início. Em um lugar que os olhos não podem e não devem enxergar. Um ser superior e celestial os recebe com uma energia de fazer o cantinho das suas bocas tremerem para o sorriso. Com uma alegria de fazer qualquer historia terrena não existir, com uma alegria alvejada no espaço em sua totalidade. Brincadeiras, cânticos e nenhuma consciência anterior.
 Acabaram de chegar dois anjos no céu, foi um processo rápido aqui, mas longo na terra, porém que mais me intrigava era o porquê, sim a necessidade intencional dos acontecimentos.
É isso mesmo!  Todos os anjos começam na terra. São crianças que sofreram uma trágica morte e que provocaram uma dor de amor em seus parentes, conhecidos ou desconhecidos. São crianças em um primeiro plano e anjos no segundo. Isso me faz recordar de Isabela Nardoni e João Helio, mas além de lembrar deles e de outras crianças, sofro todos os dias pelos mais novos  Anjos do Senhor hoje, antes eram Miguel e Daniel,  os meus filhos.


 Premiado em 2009 - FEMUP












O MORTO DA CASA DE ALPENDRE
(Superpelota)

Aquela casa nunca mais saiu da minha memória, hoje, depois de 35 anos, quando fecho os olhos ainda recordo as cores da pintura das janelas, o alpendre de cimento vermelho e duas cadeiras de mangueiras verde e vermelha, postas uma em cada canto do alpendre, deixando um vão livre para a passagem da porta principal. Nas cadeiras dormiam sossegadamente dois cachorrinhos peludos da raça pequinês, estes tinham dois dentões um em cada canto da boca, que perpassava uma presa pela outra e dava a aparência de ferozes, metia medo na gente.
Era uma casa simples, mas era linda, tranqüila, com grades verde abacate, somente as casa boas possuíam grades de ferro na frente. As pessoas que viviam lá, dois casais pai e filho, mãe e filha era uma família harmoniosa, eles não davam conversa para ninguém lá de casa, muito menos para mim que tinha 08 anos.
Muitas vezes eu ficava brincando de queimada na rua enfrente a minha e a casa de alpendre e por alguns minutos eu até parava o jogo por me entreter olhando aquela casa rosa meio amarelada. Os colegas sempre me chamavam atenção e diziam que eu perderia a vez de jogar. Ameaça que não se cumpria  pois eu era boa na queimada.
Certa manhã eu estava esquentado no sol, sentada numa pilha de tijolos, aqueles assentados para proteger o hidrômetro das  casas, quando vi um entra e sai da casa de alpendre. Os adultos mantinham uma relação de extrema formalidade e as regras de obediência das crianças eram rigorosas, eu não poderia se quer perguntar o que estava acontecendo, se fizesse esta pergunta, receberia como resposta um olhar fuzilante e ainda envergonharia a minha mãe e o meu pai.
Fiquei atenta, atravessei a rua, escorei na grade e tentei ouvir alguma coisa. Que nada! Fui mais além, mesmo com medo brinquei com os cachorrinhos que não eram bravos coisíssima nenhuma! Consegui ouvir as palavras “Morreu e roxo”.
-Quem morreu? Perguntei num estalo, ninguém me respondeu, nem se quer me olharam.
Será que foi o Antonio! Não! Ele era robusto, bonitão e aparentava uns quarenta anos mais ou menos, tinha bigode espesso e uma boca bem torneada. Não!  Ele era novo demais para morrer. A Isabel não era tão bonita, mas era muito prendada, educada, suave, não gritava com os filhos, nunca a vi exaltada. Não! Ela era muito tranqüila para morrer. Os filhos! Há! Estes nem se fala.
Fiz de conta que estava correndo atrás dos cachorrinhos e fui entrando, cheguei ao lugar mais desejado, “a sala de visitas”, que era uma beleza só, estava cheia de gente cochichando:
- Levou para o hospital?!!!
-  Morreu!!
E eu ainda nem sabia quem era o morto, eu não vi ninguém saindo e ninguém falava pra gente ouvir.
A camionete antiga  de um senhor ricão, parou na lateral da casa e o tal foi levado para o hospital. E eu não escutei e nem vi quem era o morto, foi muito rápido, eu tinha acabado de entrar  pela porta da frente e ao mesmo tempo transportaram o morto que estava no quartinho dos fundos, se eu tivesse ficado lá fora talvez teria visto, mas quando entre porta a  dentro o morto saiu dos fundo pela lateral, carregado em meio al alvoroço de gente.
Que chateação ! Botaram  os cachorros e eu para fora sem nenhuma explicação. Fiquei no alpendre um tempão sentada tentando entender a  situação, mas as palavras não combinavam, ora ouvia dizer Antonio, ora ouvia dizer Isabel, diacho quem seria o morto?
Voltei para casa, ouvi a minha mãe conversando com a vizinha que estendia roupas no arame farpado que servia de cerca para as casas. A expressão delas era de espanto e aflição, fui chegando perto para ouvir a conversa, minha mãe me mandou caçar serviço, saí desconfiadinha e fui na venda cúria. Escorei no balcão de vidro com requadro em madeira fingi estar observando algo para comprar. O dono me chamou de catarrenta e me mandou embora! Ele era um barrigudo boa praça só na frente da mãe da gente. E eu ainda não sabia quem era o morto!
Mais tarde na escola, a merendeira conversava com uma professora sobre o morto, mas quando pus sentido na conversa elas pararam e esperaram eu sair.
Já de tardezinha vi um caixão sendo entregue na casa de alpendre, eu nem sabia quem era o morto! O Antonio ou  a Isabel? Os filhos eu já sabia que não eram, eu os vi chorando no sofá quando estive lá na sala.
Que raiva! Não venci a minha curiosidade e perguntei pra minha mãe quem tinha morrido. Ela me respondeu perguntando o porquê que eu queria saber fiquei sem palavras, pois a curiosidade era um defeitão.
Lá pelas oito da noite, a escuridão já havia tomado conta do céu, do lado de casa eu olhava em direção a uma porta entreaberta um caixão se estabelecera bem no meio da sala no outro lado da rua, um facho de luz e  uma sombra desenhava o caixão quase de fora da casa e eu ainda não sabia quem era o morto. 
Minha mãe enquanto esfregava as minhas costas e meus pés, me proibiu de ir lá.
Ah! Nem tanto! Fui atravessando a rua, meio com medo, mas a curiosidade me consumia. Algumas pessoas lamentavam com um choro triste que mais parecia música, até choro de velório antigamente era diferente.
Olhei no caixão, finalmente, pálida coberta com flores brancas e um véu tampava a sua testa deixando transparecer apenas a boca, olhos, nariz e o queixo de Isabel.
O casal estava desfeito, a casa de alpendre perderia o encanto a limpeza, o brilho.
O tempo passou,  e a minha curiosidade também se deteve em apenas conhecer o morto e somente depois de muitos anos alguém lá em casa tocou no assunto, foi quando descobri verdadeiramente o acontecido.
O tal Antonio teve um romance com a vizinha do lado de baixo da casa de alpendre e a esposa Isabel havia descoberto o caso, ela ficou deveras contrariada, entrou para o seu quarto, enquanto o Antonio temendo o falatório e as conseqüências fora para o quartinho dos fundos. Lá este por sua vez amarrou uma corda no teto e tentou suicidar, mas seu irmão chegou no exato momento, tirou ele roxo da forca e correu com ele para o hospital, enquanto transportava o roxo, acusava Isabel de tê-lo matado. Isabel, coitada ferida de morte pela traição do marido e pelas acusações do cunhado, deixou de acompanhar o marido e deteve-se em um quartinho de fundo, onde se estendia no teto uma corda preparada para uma alma desesperada, não pensou duas vezes. Subiu no banquinho se entrelaçou e pulou!
O marido roxo chegou no hospital e foi revigorando as forças e viveu para mais tarde, uns oito meses depois se juntar com a vizinha em outra casa, onde levou a vida.
Lá na casa de alpendre, ficaram os filhos do casal e o tal tio que se manteve calado em sua culpa. A Isabel, coitada vestiu o paletó de madeira e foi morar debaixo de sete palmos de terra.


Premiado em Junho de 2009
Goiás - SESI